“O Doiro sublimado. O prodígio de uma paisagem que deixa de o ser à força de se desmedir. Não é um panorama que os olhos contemplam: é um excesso da natureza.”
Miguel Torga, Diário XII, (1986, p. 176-177)
A introdução da vinha no território que hoje corresponde a Portugal remonta a cerca de 500 a.C., anterior à romanização da Península Ibérica. Os fenícios, que terão atingido o estuário do Tejo por volta de 600 a.C., são apontados como os primeiros a introduzir o vinho entre os povos locais.A cultura da vinha intensificou-se com o domínio romano, e assumiu grande relevância económica, ao ponto de o imperador Domiciano ordenar, no século I a.C., o arranque de metade das vinhas como medida de proteção aos vinhos de Roma. Posteriormente, sob o domínio dos Suevos, Visigodos e Muçulmanos, a vinha manteve importância económica e simbólica, alcançando expressão significativa no início da nacionalidade portuguesa.

No século XII, a relevância do vinho era já notória na região do Douro, comprovada pelos inúmeros forais que impunham contribuições em vinho aos habitantes das vilas ribeirinhas. A partir do século XIV, há registos consistentes de exportações, sobretudo para França, sendo o vinho uma das principais fontes de receita da coroa. A partir do século XVI, o comércio vinícola ganha novo impulso com a presença inglesa, que se estabelece no Porto e inicia a exportação dos vinhos de Lamego, Riba Douro e Cima Douro. Em 1678, há registo da primeira exportação oficial de Vinho do Porto pela barra do Douro.
A criação da Companhia Geral da Agricultura das Vinhas do Alto Douro, em 1756, marcou um ponto de viragem histórico. Motivada pela necessidade de proteger a autenticidade dos vinhos durienses e regular a sua comercialização, esta instituição definiu os limites da região vitícola, realizou o primeiro cadastro e classificou as vinhas e os vinhos em categorias de qualidade, instituindo mecanismos de controlo e certificação. Assim nasceu a primeira região demarcada do mundo, com um sistema pioneiro de hierarquização e proteção da produção.

As crises fitossanitárias do século XIX — oídio, míldio e, sobretudo, a filoxera — provocaram uma profunda reestruturação fundiária e técnica, e a destruição das vinhas francesas abriu oportunidades comerciais ao vinho português, mas também levou a adulterações e misturas. A reconstrução do Douro implicou a introdução do bacelo americano e o aperfeiçoamento das práticas agrícolas, incluindo a enxertia e o tratamento obrigatório das vinhas, que alterou a paisagem e atraiu novos investidores, nomeadamente a burguesia portuense, que passou a adquirir quintas e a investir na região.

A expansão da navegabilidade do Douro e a chegada do caminho-de-ferro ao Douro Superior consolidaram o prestígio dos vinhos da região. Contudo, as tensões entre lavradores e comerciantes do Porto intensificaram-se, resultando em disputas sobre o uso da denominação “Vinho do Porto” e na necessidade de reforçar a regulamentação e a proteção da marca. Ao longo do século XIX, o domínio do setor comercial sobre o agrícola acentuou a dependência do Douro face ao Porto, justificando o debate sobre a origem e a autenticidade do vinho.


A 14 de dezembro de 2001, a UNESCO integrou o Alto Douro Vinhateiro na lista de locais considerados património mundial na categoria de “Paisagem Cultural Evolutiva e Viva”, englobando áreas do concelho de Sabrosa.

De todas as freguesias, apenas Parada de Pinhão, S. Lourenço de Ribapinhão e Torre do Pinhão não fazem parte da Região Demarcada do Douro. A superfície abrangida compreende 24.600 hectares, cerca de um décimo do total da Região Demarcada do Douro. Desenvolve-se ao longo das encostas do rio Douro, traduzindo-se numa faixa longitudinal com o rio ao centro e que abrange 13 concelhos. A Região Demarcada do Douro divide-se em três sub-regiões – Baixo Corgo, Cima Corgo e Douro Superior.
O Alto Douro Vinhateiro é uma zona particularmente representativa da paisagem que caracteriza a vasta Região Demarcada do Douro, a mais antiga região vitícola regulamentada do mundo. A paisagem cultural do Alto Douro combina a natureza monumental do vale do rio Douro, feito de encostas íngremes e solos pobres e acidentados, com a ação ancestral e contínua do Homem, adaptando o espaço às necessidades agrícolas de tipo mediterrâneo que a região suporta. Esta relação íntima entre a atividade humana e a natureza permitiu criar um ecossistema de valor único, onde as características do terreno são aproveitadas de forma exemplar, com a modelação da paisagem em socalcos, preservando-a da erosão e permitindo o cultivo da vinha.
